sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Fim de ano, início de ano


Estou de volta! Passei um fim de ano bem diferente dos que estava acostumada, mas muito bom. Vou contar um pouco, depois vejam as fotos no facebook!

Começou no dia 21 de Dezembro, quando fiz as provas finais de câmera e fui pra Arcos com o Juan.
Fomos de trem, como da última vez. Miguel e Encarna estavam lá na estação de Ronda esperando a gente com aquelas caras ansiosas, muito fofos.
No dia 22 saímos de manhã para nosso Natal número 1, que foi lá nos Pirineus com a família do Miguel.
Aqui vale uma explicação de como funciona o Natal na Espanha: nos dias 24/25 (que eles chamam de Noche Buena) ninguém ganha presente e poucas pessoas falam do Papai Noel, juro! Eles se encontram e jantam juntos, tem presépio montado e tal... Algumas casas até colocam Papai Noel escalando a janela, mas não é como no Brasil que tem um monte de papais noéis pelos lugares... E não é ele quem traz o presente da criança que se comporta bem o ano todo. 
Não sei que impacto isso tem pra vocês, mas pra mim foi grande! 
Enfim, o grande lance aqui são os Reis Magos. Los Reyes são comemorados nos dias 5/6 e são eles que trazem os presentes.
Nas cidades passam carros com os reis em cima, eles jogam presentes e balas para as crianças, um verdadeiro espetáculo em cidades grandes e mico nas pequenas. hahah Depois volto a falar sobre.
Bom, no fim posso dizer que parece mais natural a coisa desse jeito. Papai Noel é meio demais, não acham?
Os reis magos têm roupas mais legais e eles são realmente os que levam os presentes para Jesus... Enfim, cada um julga como quiser.

Voltando à nossa viagem cruzando a Espanha do sul ao norte: 
Organização do carro: Juan dirigindo, eu de copilota e os pais dele no banco de trás. Miguel gripado.
A ideia deles era ir parando em cidades para eu ir conhecendo, coisa que eles já tinham feito todos os outros anos com o Juan, e para eles não era tão legal.
Mas para mim foi muito bom, como era a primeira vez tinha outro encanto. Lembrava o tempo todo do “As cidades invisíveis” do Italo Calvino, um livro que eu amo e recomendo sempre. Me vinha aquela sensação de que cada cidade tem seu encanto, seu mistério, sua gente, sua maneira... porque é assim mesmo.
Passamos por La Mancha e vi um moinho numa montanha, lembrei do Dom Quixote... Mas não paramos lá. Quem sabe uma outra vez?

Primeira parada: Parador de Zafra, para almoçar.
Os Paradores aqui na Espanha são uma rede de hotéis de alta qualidade que existe desde 1928. A maioria deles está em centros históricos e muitas vezes ocupam edifícios restaurados. Eles são considerados patrimônio. (wikipedia!)
Cada um tem seu restaurante, todos com comida muito boa, alguns excelentes e outros nem tanto.
O de Zafra era meio caidinho perto dos que eu já tinha visto. Era pequeno e com um ar de “faroeste”... Mas a comida estava uma delícia! Provei Migas, que é um prato típico feito com miolo de pão, ovo e chorizo. Bem forte, como são todas as comidas espanholas. Adorei!
Comemos muito, aqui é sempre assim. Eles tem o primeiro prato, o prato principal (segundo) e a sobremesa. Fora as coisinhas pra beliscar que vem antes e o pão com azeite que sempre está na mesa.
E pra mim só o pão com azeite já é um prato, porque os azeites são tão bons que eu encharco bem o pão e como tudo, deixando pouco espaço pra comida.
Mas posso dizer que no fim da viagem eu já tinha aprendido a comer uma quantidade que me satisfazia e não me deixava com aquela sensação “bola”. Aprendi que não se come o pão inteiro e que não se pede primeiro e segundo prato, pede-se um ou outro. Pelo menos pra mim funciona assim.
No final estávamos pedindo sempre uma salada para todos e um prato para cada um, às vezes com sobremesa e outras vezes sem.
Uma coisa curiosa é que eles não misturam as comidas. Eles não colocam por exemplo a salada no prato que vem a comida. Comem primeiro uma coisa até o fim, depois outra e depois outra. Me dá uma pena...! Perdem muitas mesclas interessantes. Eles acham engraçado o fato de que eu misturo tudo. Misturo mesmo! Adoro! Principalmente se tem molho. Aí é aquela festa: provo o molho na salada, na comida, no pão... Delícia!
Enfim, terminamos de comer e pegamos a estrada de novo. Não valia a pena conhecer a cidade, era pequena e parecia sem graça. Mesmo pequena tinha uma plaza de toros. Toda cidade aqui tem uma. Me dá certa aversão, é horrível o que fazem com os touros.

Segunda parada: Trujillo. Estava já de noite e paramos para ver pedras, como dizia o Juan. Muros de pedra que haviam sido construídos pelos romanos, igrejas, construções...
No entanto, o que mais gostei de Trujillo foi a praça principal, que é bem grande e aberta. Dá vontade de patinar nela.
Os jovens estavam em grupinhos pelos cantos da praça... lembrei de mim em Petrópolis com meus amigos. Ser jovem em cidade pequena é algo... “fuerte”, pra resumir.
Os restaurantes tinham todos aquela “pinta” medieval... E as portas dos lugares também. O Juan adorou as portas, disse que quer colocar uma na nossa casa imaginária. E porque não, né? Está lá.

Continuamos a viagem até chegar em Plasencia, a cidade do riso, como eu agora a chamo.
Fomos direto pra um hotel que eles já conheciam e nos hospedamos para uma noite. Juan tomou um banho e fomos jantar num outro Parador. A cidade tem um arqueduto romano e muralhas imensas de pedra. Tem também um ar gostoso, não sei explicar... se está bem ali. Nos perdemos. Eu com o mapa tentando encontrar o Parador e vi um P, fomos seguindo o tal do P e era um estacionamento (Parking). Risos.
Paramos para perguntar. Dois homens explicaram e conseguimos chegar.

O Parador era num antigo monastério (pelo que entendi), imenso e muito lindo. Super decorado, do chão ao teto. Pelos corredores cercados de arcos, estavam sofás antiquérrimos, daqueles que as laterais são super altas e que no meio dá pra descer uma tábua que vira mesa. Tinha um salão com uma mesa enorme, super decorado e chique para reservar. E nós fomos comer no restaurante em si, que a Encarna me disse que era a antiga igreja onde os monjes rezavam as missas. Ok.
Quando entramos, achei pequeno para uma igreja, e de cara vi o Miguel numa janelinha dessas que ficam no alto da parede, acenando.
A Encarna continuou a explicação, disse que a janelinha era onde eles liam a missa. Ok.
Tinham outras duas mesas com gente. Uma com um casal e outra com uma família daquelas tipo nobres: todos loirinhos e educados. Nos sentamos e o Miguel contou o que era aquele lugar, que eu agora não me lembro, mas não era uma igreja. A Encarna começou a rir, me disse que às vezes ela acha que lembra e ao mesmo tempo inventa o que ela acha que é o lugar. Rimos muito. Eu também faço isso e adoro! É muito mais legal o que a gente inventa do que o que realmente é.
Pegamos os menus e começamos a ler. Os pratos tinham nomes bizarros, que ninguém entendia! Eu perguntei o que significava tal coisa (uma das cinco palavras estranhas que davam nome ao prato) e o Miguel, sério, me explicou que se tratava do escroto do animal. Eu fiz uma cara, inevitável, de nojo e vi que o cara da mesa ao lado estava tentando disfarçar suas risadas. Continuamos cada um a perguntar pros demais o que significavam aquelas coisas escritas no menu, totalmente leigos e com sotaque andaluz “de rua”, digamos assim. Parecíamos pobres que nunca tinham ido num restaurante chique na vida. Adoro essa situação! Cada palavra do menu que pronunciávamos provocava risos. Chamamos o garçom para perguntar e ele explicou que aquilo que eu tinha perguntado não era escroto de nenhum animal (talvez por isso o homem da mesa ao lado estava rindo) e explicou outros pratos. Ele, ao contrário de nós, estava super de mal humor, coitado.
Pedimos os pratos e uma garrafa de vinho e aí não paramos mais de rir. O homem da mesa ao lado se divertiu muito também só de escutar a gente. E quando foi embora, falou pra gente “bom apetite”, muito simpático.
A comida era deliciosa, agora não lembro o que pedimos. Mas sei que contamos piadas e rimos muito a noite toda, daquelas risadas que você tá com a comida na boca e tem que colocar a mão na frente, as melhores! Miguel esqueceu da gripe, e todos afastamos nossas penas por um tempo.

Dormimos no hotel (adoro dormir em hotel, toalhas limpinhas, sabonete individual, tudo cheirando bem preparado pra te receber...!) e acordamos renovados. Tomamos café-da-manhã lá mesmo e pegamos a estrada.

Quarta parada: Segovia. Eu sempre tive vontade de conhecer Segovia, porque uma amiga do grupo (Mau) que ficou hospedada lá em casa uns três meses quando morávamos na General (e virou mais uma irmã minha e da Marian) nasceu lá.
Fomos almoçar num restaurante que parecia desses que os caçadores vão depois da caça. Não sei explicar o porque da sensação. Tinha um presépio enorme montado e os personagens se mexiam, muito legal.
Pedi codorniz pra provar e amei! Uma delícia de carne (foto no face). Veio com batatas encharcadas no azeite (eles fritam tudo no azeite e não secam), que eu adoro também. Comemos e fomos ver o famoso arqueduto romano (de novo!). Esse era bem maior que o de Plasencia, e incrível mesmo como eles conseguiam fazer a parte de cima (do U ao contrário) sem que caíssem as pedras. Eles não uniam as pedras com nada, era pedra sobre pedra! Curioso pensar: como eles não conheciam outras formas de passar a água? Enfim. A cidade é muito bonitinha! subimos as escadas e chegamos no alto do aqueduto, de onde se via parte da cidade. Toda arrumadinha, com montanhas ao fundo... Tranquila e diferente de tudo o que tínhamos visto antes. A estrutura da cidade parecia mais organizada, mais civilizada, sei lá. Antes de ir embora paramos na Igreja da Vera Cruz (séc.XIII), um lugar que eu tinha vontade de conhecer porque a Encarna sempre falava que o Agha tinha levado o grupo THT lá, etc...
Estava fechada. Uma pena. Tiramos fotos dela por fora, bem bonita.

Quinta parada (de noite): Monasterio de Pedra. Chegamos de noite depois de pegar estradinhas mínimas dessas de filme de terror. Um lugar que ficava bem escondido, bem longe. Quando chegamos não deu pra ver nada porque estava tudo escuro. Fomos direto pro hotel, que fica numa parte reformada do monastério. Que grande! Teto super alto, corredores imensos com um eco absurdo, que só de você pisar parece que vai acordar todo mundo. O hotel estava cheio, e todos eram dessas famílias tipo nobres. Não curto. As matriarcas são sempre as piores, com cara daquelas madrastas de contos.
Jantamos no hotel, a comida estava horrível. Achamos que era porque a cozinha estava quase fechando quando chegamos. No dia seguinte a Encarna reclamou, com razão.
Dormimos muito bem e tomamos aquele café-da-manhã de rei! Pra mim essa é a melhor refeição, quando bem feita. Tinha mil tipos de pães, doces, chás, cafés, sucos (industriais, nem tudo é perfeito)... Fora os queijos, o jamón cortadinho (só quem corta jamón alguma vez sabe a alegria que dá recebê-lo já cortado e ainda mais quando é bem cortado, as geléias... Nossa, sonho meu! Queria morar num hotel assim só pra ter esse café-da-manhã todos os dias. Me lembrou a casa da vovó Luiza, onde tomamos sempre aqueles cafés-da-manhã maravilhosos e intermináveis, que cada vez que alguém acorda todos voltam a sentar (ou permanecem sentados) para tomar novamente o café... e parece que vai durar pra sempre. Ô delícia de memória!

Depois do café, fomos passear e aí é que veio a surpresa. Um dos lugares mais incríveis que já visitei! Cachoeiras, cavernas, natureza pura, lagos imensos, montanhas maiores ainda e vermelhas... Que passeio! Eu e Juan, tipo lua-de-mel, passeando e sorrindo sem parar, íons negativos!!! Ficamos mais de duas horas conhecendo o lugar, que é bem grande. Eles tem criação de peixes nos lagos, inclusive truta. E a maior cachoeira tinha uma caverna atrás que dava pra entrar, igual esses documentários da National Geographic! Incrível, aplausos para o Monasterio, sério! Recomendo muito.

Saímos dos jardins e fomos ver a parte mais chata: as ruínas do monastério, um museu do vinho que eles fizeram numa parte do monastério, o lugar que os monges faziam seu chocolate (eu super associo monge com chocolate, por causa daquele chocolate em pó brasileiro que tem os monges na capa lambendo a panela! é bem óbvio que eles fizessem vinho e chocolate, devia ser bem sem graça a vida deles... tadinhos), um lugar subterrâneo que tinha 48 pessoas enterradas (não sei que pessoas eram e entrei lá porque não entendi o que era), a igreja e um pátio. Muito bonito tudo, eles tem também um spa e salão com mesas pra celebrar casamentos, lindo lindo lindo.
Saímos de lá com pena, com vontade de ficar mais. Mas a família estava esperando e fomos embora.

Chegamos nos Pirineus (que visão sem palavras: sair do túnel e ver aquelas montanhas!), mais precisamente em Sabiñanigo, a cidade onde moram os tios, o primo e a avó do Juan, Maria, uma das pessoas mais incríveis que conheci.
De filhos só tem o Miguel e o Felix, que é casado com uma mulher chamada Fina (e sim, ela é fina mesmo, em todos os sentidos!). O outro irmão morreu quando tinha 36 anos, escalando, e deixou um filho, o primo do Juan.
Eu e Juan ficamos hospedados na casa do Felix e da Fina, num quarto de hóspedes com duas camas de solteiro. Os pais do Juan ficaram na casa da abuela Maria, que está agora morando numa casa de repouso de idosos.
Compramos flores para ela e fomos buscá-la lá para jantar conosco na casa do Felix. Eu já tinha escutado muitas histórias dela e estava ansiosa para conhecê-la. Chegando lá, tinha um padre celebrando uma missa, e ela estava na primeira fileira. O Miguel disse que ia salvá-la da missa, que ela ia adorar. Ela é muito devota, mas ao mesmo tempo em alguns aspectos não acredita/confia muito na igreja. Isso é algo que ela não fala pra todo mundo, mas que o Miguel me contou que um dia ela se abriu com ele e disse isso.
Bom, ele entrou no meio da missa e ficou parado na frente dela enquanto o padre falava. Todo mundo começou a olhar e a Maria, tadinha, ficava tentando ver se era ele mesmo. Quando finalmente ela percebeu, levantou com seu andador, fez o sinal da cruz, e saiu da missa. Muito feliz, abraçou o Miguel (que é o triplo dela em altura) e começou a gritar “que alegria, fizeram boa viagem?...” etc. Ela grita porque está completamente surda, e o Miguel fazia um gesto pra ela abaixar o tom de voz mas ela abaixava e logo depois voltava a gritar. Subimos todos para o quarto dela e demos as flores e uma colônia, que ela amou. Me apresentaram e ela disse que eu sou muito bonita, e aquelas coisas de vó. Muito fofa, simples, humilde, engraçada. Que mulher!
Fomos pra casa do Felix e da Fina e jantamos todos juntos. A abuela Maria ficava contando histórias do passado e soltando ditos populares, como não podia se comunicar bem, saía falando quando tinha vontade, sem pudor. Eu e Juan ficamos super atentos, ouvindo, porque pra gente ainda é novo. Quem a conhece diz que são sempre as mesmas histórias e que depois de um tempo até eles sabem de cor. Ela contou de uma saia que a mãe dela tinha, fiquei super presa na história da saia. De como a mãe conseguiu a lã cinza, porque só tinham preta e branca e teve que pedir pra um fiador do povoado pra ele misturar as duas perfeitamente e fazer o cinza. E de como a mãe costurou a saia, que começava na cintura bem apertada e ia abrindo até o chão. De como a m˜ãe ficava linda naquela saia que durou muito tempo, mais de dois invernos. A Maria viveu a vida toda em Acumuer, um povoado mínimo que hoje não tem habitantes, os que tem casa lá vão no verão. No auge acho que chegou a ter 400 pessoas lá. Imaginem isso! Com os Pirineus no fundo, uma paisagem de tirar o fôlego, uma tranquilidade e uma escassez... Que vida eles tinham. Enquanto o mundo estava evoluindo eles continuavam a viver quase como os romanos. Impressionante.
Maria contou histórias do padre que dormia com uma mulher do povoado, de uma mulher má que roubava o sabão dela quando elas iam lavar a roupa, dos pastores, de como ela andava 4 horas para poder pegar leite, de como ela fazia o pão... Ela é de uma pureza... quase como uma criança. Gracinha de pessoa. Ficava falando que comer sem vontade não serve de nada porque as vitaminas não ficam no nosso corpo. Falava que ela não tava com fome, mas quando colocavam a comida no prato ela comia sem parar! Muito engraçada. Adora comer.
Depois do jantar a levaram de volta pro asilo e todos fomos dormir.

Nossa estadia em Sabiñanigo foi ótima. Eu e Juan fizemos uma caminhada de 4 horas, conhecemos Acumuer, o cemitério onde estão enterrados o avô e o bisavô do Juan, a igreja (por fora, porque estava trancada) que tem um portão de ferro feito pelo bisavô do Juan que era ferreiro, e três casinhas que pertencem à Maria. Uma inteira e linda, que dá vontade de voltar pra passar um mês com amigos (Ken e Marian, Male e Raoni, lembramos de vocês lá!). Tem o rio ao lado, uma churrasqueira de pedras... e tem que tomar banho no rio! A casa é essa da foto do post, demais né?
As outras duas precisam de reformas.
Juan conheceu melhor seus antepassados, vendo fotos, perguntando, ouvindo as histórias da avó. Lembrei do “Cinema Paradiso”, um dos meus filmes preferidos, onde o personagem principal volta à sua cidade natal e relembra histórias do seu passado.
Também aprendemos a fazer Empanadico, um doce que a Fina e o Felix fazem que é com abóbora. Uma delícia! Fizemos desde a massa até o recheio. Quem quiser eu passo a receita, e quando eu voltar convido todos para provarem quando eu fizer!
Com Miguel e Encarna visitamos duas igrejas que ficam perto de Acumuer, muito pequenas, de pedras, fofas. Entramos nas duas, uma onda boa, uma simplicidade, bem diferente dessas igrejas enormes super adornadas. Essas igrejas serviam para as pessoas se encontrarem, elas vestiam suas melhores roupas e iam para lá, para se ver, para falar com Deus. Muito bonita a ideia. Elas fazem parte da antiga rota do caminho de Santiago.

Um dia antes de irmos embora, almoçamos num restaurante de um amigo de infância do Miguel com a família toda, incluindo o primo do Juan e a mãe dele, Ana. Eles são mais tímidos, o primo trabalha de vigilante numa fábrica e a mãe é faxineira. O primo ouvia sobre as viagens do Juan, ele quase nunca sai de Sabiñanigo, bem diferente. Foi um almoço muito bom, a Maria como sempre uma figura. Colocaram bacalhau pra ela, ela gritou “te conozco bacalao, aunque vengas rabozao”, que significa que mesmo que façam de vários jeitos ela sabe que é bacalhau. Felix e Fina, com vergonha, pediam pra ela falar baixo, e ela continuava gritando, um verdadeiro Nasrudin! Adorei! Eles são mais formais. Ela me lembra aquele filme das mulheres perfeitas que no fim são robôs, não lembro o nome. Ela é assim mesmo, fala pausadamente, pronunciando bem cada palavra, é bem organizada, a casa está sempre um brinco, cuida do marido...
Voltando ao almoço. Miguel e Encarna deram de presente pra mim e pro Juan dois livros. Pro Juan um sobre Acumuer e a história de quem viveu lá, em que ano, etc. E pra mim um sobre a zona que visitamos, as igrejas, as construções, etc. Os livros circularam pela mesa e cada um, incluindo a abuela, escreveu uma mensagem em cada um deles. Bonito o presente.

Dia 27 fomos embora, em um dia voltamos para Arcos. Saímos 9 e chegamos 22h. Os tios do Juan estavam tristinhos na despedido, fizemos um vínculo legal com eles. Ganhei uma lembrancinha deles e levamos um empanadico inteirinho pra Arcos.

Em Arcos, descansamos e comemos comida andaluza de novo, que na minha opinião é muito melhor que a comida do norte. O Juan passava grande parte do tempo no horto, plantando coisas, arando, cuidando das galinhas, tirando mato...
Foram uns dias bem tranquilos. Eu ficava lendo, ajudava a Encarna na cozinha... Às vezes íamos pra La Zahara, o campo do grupo que fica do lado da casa dos pais do Juan. Nessa época do ano fica tudo verde, bem diferente do verão, onde está bem mais seco. Fui várias vezes na Tekkia, os italianos do grupo estavam lá e inauguraram o forno que começaram a fazer em 2010 com comidas para todos: pizzas, cordeiro, carne de vaca, batatas, porco, pimentões... Eles estavam bem ativos. Eu participei fazendo a massa das pizzas e preparando tudo junto com outros amigos que estavam lá no dia das carnes.

No dia da pizza não fiquei para comer, porque a família da Encarna veio comer em casa. Anteciparam o dia dos reis e fizeram dia 30. Essa família é mais falante, mais barulhenta e tem mais gente. Mas não foram todos. Foram duas irmãs da Encarna (a mãe, a outra irmã e o outro irmão não puderam ir). Uma delas é bipolar e toma uns remédios, dá pra perceber. Mas gostei dela. Ela foi com o marido e suas duas filhas, da idade do Juan. Elas são bem dessas meninas de cidade pequena, que andam sempre arrumadas (na verdade estou percebendo que quase todas as espanholas são assim) e vivem a vida toda no mesmo lugar (tipo as de Petrópolis), mas muito fofas, simpáticas. Me convidaram pra ir na feira de Sevilla (elas moram lá), quem sabe...
A outra irmã da Encarna não é casada. Ela foi com o filho, a nora e o netinho Pau, que está com 2 anos. Um menino lindo, loirinho, fofo. A mãe dele é uma dessas mulheres animadas, que gritam e gostam de uma festa. Eu tava precisando de alguém assim por perto! Ela é ótima, descontrai qualquer ambiente. No fim do dia confesso que estava cansada dela e da situação. Todos estávamos.
Mas antes trocamos presentes e tiramos fotos, como todo encontro familiar.

No dia seguinte, fim de ano! Me arrumei sozinha, sem Marian nem mãe nem amigas. Mas foi bom, pra me independizar um pouco mais. Fui na cidade com o Juan, comprei num desses chineses maquiagem, aprendi na internet como maquiar os olhos e fiz uma maquiagem super pesada, que acho que estava parecida com a das meninas daqui. Usei um vestido bem chamativo, verde, que comprei no bazar que organizei lá em casa antes de vir pra Espanha. Chamou bastante atenção, espero que para bem. Fiquei bem tímida durante a noite toda, ainda não me sinto a vontade com a galera daqui. E participei do ritual de comer 12 uvas, uma a cada badalada da meia-noite. Sobraram 4 das minhas. É muito difícil! Aqui na Espanha eles fazem isso porque um ano a produção de uvas foi excedente e inventaram essa brincadeira, e desde então virou tradição.
Abracei todo mundo, ficamos mais um pouco e depois fomos pra festa dos jovens, em outra casa.
Lá não foi grande coisa, normal. Ficamos até as 4 da manhã e fomos pra casa, dormir. Que bom chegar em casa, tirar o salto e cair na cama!

Ficamos em Arcos até o dia 8, domingo. Fazendo o exercício na Tekkia, jogando palavras cruzadas e videogame com o Miguel e o Juan, plantamos batatas... Não queria ter que voltar pra Granada, confesso. Mas agora que estou aqui tenho que aceitar e ficar bem né? Tenho muito trabalho pela frente, e hoje não fui à aula porque estou com dor de garganta. Espero que passe logo. Fim de semana vou ficar de molho, escrevendo um projeto que tenho que apresentar segunda e vendo filme. Gosto disso!

Espero que estejam todos bem e aproveito para desejar a todos um Feliz 2012!!! Que esse ano seja muito melhor que o anterior! Meu 2011 foi pesado gente, preciso de um ano mais leve! Até agora está sendo, e tenho poucos mas bons planos.
Até o próximo post!

Um comentário:

  1. ah, é chato ficar repetindo as mesma coisa em todos os posts, mas repetirei! adooro ler o que vc escreve!! que delícia me sentir aí, vendo as ruínas, a natureza... sentindo o que é estar numa cidade antiga como as que vc visitou! delícia! fora as comidas!
    continue com td!! beijoo e feliz ano novo!

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